Na minha infância, em Sousa – até os 14 anos - o futebol carioca era o que fascinava. Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo (os maiorais), América, Bangu, Olaria, Madureira e São Cristóvão povoavam nossas mentes. Víamos os jogos “ouvindo a Rádio Globo”, na inconfundível voz de Waldir Amaral, com os comentários de Luís Mendes (“o comentarista da palavra fácil”) e Mário Vianna (“com dois n, falou tá falado”), sobre arbitragem.
Torcíamos pelos times do Rio de Janeiro, inobstante a força futebolística de São Paulo, com o Santos de Pelé e Vavá; o Palmeiras, de Ademir Daguia; o Corinthians, de Roberto Rivelino; o São Paulo, a Portuguesa de Desportos, a Portuguesa Santista... Todos, porém, tínhamos um segundo time, que era de São Paulo. Meu primeiro time era o Flamengo e o Palmeiras o segundo. Dalton, também Flamenguista, tinha no Corinthians seu segundo time. Luís de Nias, Flamenguista de brigar, optava pelo São Paulo como segunda escolha. Porém, “esses segundos times” eram só pra constar. O que valia mesmo era o clube do Rio.
Indo fazer o “científico” em Recife, empolguei-me com o Santa Cruz – a “cobra coral” de Givanildo e Ramon. Com apenas 14 anos, dependia da boa vontade de Renato, que, sempre ao final, cedia e me levava ao estádio “José do Rego Maciel” – o “Arrudão”.
Passados todos esses anos, deparo-me com uma situação completamente diferente: os torcedores de hoje só têm um time. Lafa é palmeirense de chorar (e chora mesmo!). Resultado: em solidariedade a ele, “inverti as bolas”: agora, Palmeiras em primeiro lugar; enquanto que o Flamengo, no meu coração, foi para a “segundona”.
Domingo passado, fui ao Recife, levando Lafa para ver Sport e Palmeiras. Acompanhados de Gustavo, noivo de Mirella, partimos rumo à “Ilha do Retiro”. Gustavo, devidamente “paramentado” com a camisa do Sport, estacionou o carro no Hospital Português e seguimos a pé, em meio à barulhenta torcida rubronegra.
Estádio quase lotado; o “caldeirão da ilha” fervia. O “Leão” rugia soberano. Os gritos da “mancha verde” eram quase inaudíveis.
De repente, sem que houvesse qualquer movimentação no gramado, um grupo de torcedores iniciou um reverente e sonoro aplauso. Que bela surpresa! Era o imortal paraibano Ariano Suassuna que subia, a passos lentos, os lances que o permitiam chegar à sua cadeira cativa. Estava acompanhado de familiares, todos jovens e, naturalmente, vestidos com camisas do Sport. Ariano vestia camisa vermelha de mangas longas, abotoadas até os pulsos, e calça social preta, em homenagem ao time do coração dele.
Não me contive. Minha cadeira estava a dois lances abaixo. Uma emoção de “arrepiar” me levou até seu encontro. Foi extremamente acolhedor. Falamos da Paraíba, de Taperoá e de Acauã. Lembramos o projeto de Marcondes, para preservação dos monumentos históricos. Tudo muito rápido (o jogo estava prestes a começar). Ele tomou-se de empolgação e disse: “foi lá (em Acauã) que passei boa parte de minha infância. Eram terras de meu pai”. Eu lembrei: “Acauã não pertence mais a Sousa. Aparecida emancipou-se”. Ele, em tom suave, retrucou: “Aparecida, não; “‘O Canto’ é que virou cidade”. Em meio a risadas, nos despedimos.
Começou o jogo. E agora, Salomão? Torcer pelo Palmeiras de Lafa era torcer contra o Sport de uma das maiores figuras que a Paraíba já ofereceu ao mundo. Era torcer contra Ariano Suassuna. Imaginei-me vibrando com um eventual gol do Palmeiras. E pensei: Isso não dá certo. Preveni Lafa: “Vou torcer pelo Sport, nem que seja por um dia”. Ele, diplomaticamente, respondeu: “E eu também”.
Deu tudo certo. Sport 3 a 1. Todos muito felizes e eu com minha consciência em paz.
Até aprendi o grito de guerra: Casá – casá – casaca. A turma é mesmo boa. É mesmo da fusaca.
SPORT! SPORT! SPORT!
E viva o nosso imortal ARIANO SUASSUNA!
Salomão Gadelha