Segunda-feira, 06 de Setembro de 2010

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01/05/2008 - 15h07

Brasília

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“Deus fez o homem à sua imagem” (Gn 9,6). Concedeu-lhe o livre arbítrio, dotou-lhe de inteligência e racionalidade.

 Juscelino (criatura divina) construiu Brasília ao modo dele, num estilo plural, democrático e com muita determinação. Pode até nem ter sido a sua obra mais importante como político (Secretário de Estado, Deputado Federal, Prefeito, Governador, Senador e Presidente da República); mas, certo é, que foi a que o consagrou e o imortalizou.

 O gênero humano vem se distanciando (exceções existem!) da vontade do seu Criador. E nisto, não vai aqui nenhuma novidade.

 Brasília, por sua vez, conserva do seu criador o arrojo da arquitetura, a funcionalidade de suas edificações e o moderno planejamento urbano. Deixa vivo, também, o glamour do mineiro de Diamantina, médico por vocação, político por devoção e otimista de nascença.

 Todavia, Brasília sepultou o que de mais belo lhe inspirou: aproximar a capital federal do povo brasileiro, nas suas mais diferentes regiões geográficas.

 Foi num comício em Jataí (pequena cidade do estado de Goiás), onde Juscelino anunciou a sua decisão de cumprir um mandamento constante da primeira constituição republicana. Inobstante parecer a alguns ter sido fruto de um rompante, a verdade é que houve uma preparação para aquele gesto.

 Juscelino tinha noção de sua popularidade em Goiás e, notadamente, em Jataí, razão porque decidiu iniciar sua campanha por lá, mesmo tratando-se de um minúsculo “colégio eleitoral”. Enviou telegrama ao prefeito da cidade, Luciano de Carvalho, avisando-lhe do comício. O diligente prefeito cuidou logo em decretar feriado municipal, num gesto hospitaleiro da época; hoje, porém, violentamente afrontoso à nossa legislação eleitoral.

 Ë verdade que houve a interpelação de um cidadão do povo, à qual Juscelino respondeu afirmativamente, sem qualquer titubeio. Mas é igualmente verdade que o futuro presidente tinha consciência de que, prima facie, apenas o estado de Goiás se empolgaria com aquele compromisso.

 No íntimo do seu coração, o que JK queria mesmo era fazer Brasília – uma cidade, no seu sentir, muito mais aberta aos reclamos do Brasil do que o Rio de Janeiro, ainda com cara de capital da realeza. Juscelino amava o povo e queria o povo no poder... Ou, pelo menos, perto do poder. Imaginava um Brasil integrado, a partir da sua sede central. Sonhava com os ministérios de portas abertas, com as repartições públicas tão hospitaleiras quanto lhe fora o Prefeito Luciano Carvalho. Não queria ninguém maior nem menor. Queria sensibilidade e justiça presidindo as relações entre as três esferas de poder.

 Brasília é linda – com a arquitetura do gênio Oscar, consagrando-a patrimônio cultural da humanidade. Está bem arborizada, com parques, bosques, gramados imensos e as águas plácidas do paranoá despertando a contemplação.

 Mas Brasília é feia na alma. Os que lá habitam (exceções existem!) sentem-se numa redoma, numa “ilha da fantasia”; e até parecem carregar o saudosismo de um tempo não vivido: aquele em que a Capital do Brasil abrigava a Corte Real.

 Nada, porém, está perdido. Mudem os homens, ou os homens mudem a sua forma de pensar, e Brasília será aquela cidade idealizada por um presidente que, não raras vezes, após despachos que invadiam a madrugada, saía com Zé Maria, Israel, Sayão, Oscar, Abelardo, Schmidt e outros tão próximos, para comer tutu à mineira nos botequins ainda abertos.

 Viva a Brasília de JK, o homem que pensava como Fernando Pessoa: “tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”!

 

Em 21 de abril de 2008.

Salomão Gadelha.





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